O futebol é lindo.
Os dribles curtos,
Os passes longos,
Os carrinhos precisos,
As defesas milagrosas.
O posicionamento cuidadosamente estudado,
A movimentação em busca de espaço,
A jogada ensaiada à exaustão,
O improviso genial.
O futebol é lindo.
Mas o que o torna apaixonante
É essa incrível capacidade,
De pegar pesadas lágrimas
Que escorrem pelo rosto
E fazer com que no segundo seguinte
Elas dancem alegremente sobre um sorriso
No futebol sempre é possível.
Para todos.
Por isso ele é tão fácil de amar.
Poema feito semana passada, após a leitura dessa notícia.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Niemeyer
Há quem não goste das obras de Oscar Niemeyer, quem ache Chico Buarque
chato, Vinícius de Moraes piegas, e há até quem ache a Agatha Christie simplória. Esse texto não é para essas
pessoas. Esse texto, alias, não é muitas coisas. Não é justificado, não possui hifenização,
as margens não são regulares. Não é um conto, nem uma crônica, nem um poema.
Esse texto não defende nenhuma ideia, não argumenta sobre nada, não desenvolve
nenhuma tese. Esse texto é alinhado à esquerda, se pudesse teria curvas e seria
uma série de palavras dispostas sinuosamente, criando formas leves, como se o
arquiteto tivesse trocado o concreto por letras de macarrão. Esse texto é para
Niemeyer.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O SEXO DAS 14 HORAS
O sexo favorito de Carlos e Débora era o das 14 horas. Todos os dias
atrasavam o horário de almoço, saiam do trabalho às 13:15, chegavam em casa,
comiam alguma coisa rapidamente, devoravam-se com fervor e voltavam para o
trabalho. Claro que também transavam em outros momentos, e que tinham momentos
em que não transavam, davam-se bem em todos os aspectos, incluindo as pequenas
discordâncias que tinham. Apaixonavam-se mais a cada conversa, desejavam-se
mais a cada olhar, precisavam-se mais a cada ausência. E conversavam muito, não
conseguiam tirar os olhos um do outro, a ausência era cada vez menor e mais
demorada. Mas o sexo das 14 horas não falhava nunca.
O almoço era sempre algo que já estava pré-pronto, assim não perdiam mais
de 10 minutos na refeição que os separava da sublimação. Transavam na mesa, no
sofá, no box do banheiro, na máquina de lavar, no tapete, no chão, e
eventualmente, quando estavam um pouco mais pervertidos, na cama.
Os olhos de Débora pareciam coordenar a dança dos corpos, apertavam-se,
arregalavam-se, reviravam-se, se fechavam dando ao rosto feições de uma
tranquilidade que apenas o sexo pode criar. Os lábios formavam um leve sorriso,
antes de explodirem em gemidos que misturavam-se aos de Carlos. Os pés da mesa
arranhavam o chão, o encosto do sofá batia na parede, o vidro do box balançava,
a máquina de lavar trepidava, a cama rangia, e chão absorvia todos os impactos.
Isso repetiu-se por 213 dias, uma vizinha precisava de silêncio para
trabalhar e entrou na justiça contra o sexo das 14 horas. O juiz deu ganho de
causa para a vizinha, definindo que Carlos e Débora estavam proibidos de
transar em horário comercial, a menos que o fizessem no mais absoluto silêncio.
Tentaram, é claro, mas o sexo das 14 horas não podia ser feito em silêncio. O
sexo das 14 horas era uma loucura, era a entrega de quem não podia mais
resistir ao desejo, era urgente, era quase visceral. O sexo das 14 horas em
silêncio, não era o sexo das 14 horas, era apenas um sexo feito as 14 horas, e
esse podia esperar, esse não tinha urgência alguma, esse tinha muito pouco de
carnal. O sexo das 14 horas em silêncio não tinha nenhuma razão de ser.
Pararam com o sexo das 14 horas, pararam também de almoçar em casa, para
evitar tentações. A produtividade de Carlos começou a cair, os clientes
começaram a reclamar, a coordenadora de Carlos o chamou para uma conversa
franca. Carlos tinha o péssimo hábito de ser franco em conversas francas.
Acabou demitido. Débora conseguiu disfarçar um pouco melhor, mas procurava um
solução para o sexo das 14 horas. Pensaram em Motel, chegaram a ir, mas não
poderiam fazer isso todos os dias e também não era a mesma coisa, faltava
intimidade.
Enquanto esperava um novo emprego cair no seu colo, Carlos visitava
alguns amigos. Pedro, que era músico, convidou Carlos para conhecer sua nova
bateria, e no exato instante em que entrou no pequeno estúdio caseiro do amigo
Carlos pegou o celular e ligou para Débora.
-
Isolamento Acústico.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
DEMAQUILANTE
Sem aviso
Sem ninguém querer
O encanto se quebra
A musa idealizada some
A Deusa de bronze derrete
Sem aviso
Sem ninguém querer
Sobra apenas a mulher
Ficam nesse mundo
Os olhos castanhos
Os traços delicados
Os lábios, os ombros
Os seios arfantes
Num suspiro fujão
Sem aviso
Sem ninguém querer
Sobra Deus se aposentando
Sobra a natureza perdida
Sem ter para onde evoluir
Sobra você em mim
E não, nada mais sobra
quinta-feira, 28 de junho de 2012
LIBERDADE
Julgamos justo o que desejamos
E nos desesperamos, e brigamos, e
lutamos e gritamos!
E quanto mais nos desesperamos
Mais fracos ficamos
E quando mais alto gritamos
Mais inaudíveis nos tornamos
O que acontece com nossos brados
retumbantes
Que perdem-se no ar?
Vagam pela eternidade, no espaço
Perdem força, ficam fracos
Tornam-se um zumbido no infinito
Mas um dia
O zumbido de Zumbi invadirá as
mentes dos que não ouvem
Abrirá os olhos dos que não veem
Livrará das correntes as almas
E encherá as bocas dos que sempre
aguentaram calados
E então
Novamente retumbante será o brado
Pois não haverá mais desespero
quarta-feira, 27 de junho de 2012
GUSTAVO E FLORA (3)
Rogério chegou
na casa de Cristina decidido a se declarar, sem saber que ela, após seis anos,
tinha cansado de esperar e estava namorando. Por isso quando entrou na sala,
vestindo calça jeans e chinelo, Gustavo encontrou Flora chorando no sofá. Foi a
primeira vez que ele teve um retorno sincero e imparcial sobre seu trabalho, a
primeira vez que ele pode ver a reação de alguém que não sabia que ele era o
autor.
- É maratona? – Gustavo perguntou mais para anunciar sua
chegada do que por interesse.
- Sim – Flora respondeu secando as lágrimas. – Esse é o
final da sexta
temporada
- Tu come massa?
- Claro.
- E queijo?
- Também.
- Tá.
Gustavo foi
para a cozinha desejando poder apagar o diálogo e dizer algo mais inteligente, porém
mudou o foco de suas preocupações quando constatou que não tinha massa em casa.
Isso era de se esperar, já que Gustavo e Pedro dividiam a tarefa do super em
uma semana para cada um, e aquela tinha sido a semana de Gustavo, que só
decoraria listas de super se fossem poemas.
Quando chegou
ao lado do sofá, Gustavo viu Flora passar a mão nos cabelos castanhos e
jogá-los para o lado. Saiu do transe após dois segundos, explicou que o almoço
ainda demoraria um pouco, e foi surpreendido quando Flora disse que ele podia
relaxar, pois Pedro havia deixado um número de tele-entrega e ela pedira uma
pizza. Gustavo achou ótimo não precisar exibir os seus dotes culinários e poder
sentar no sofá ao lado de Flora, que também achou muito bom.
Flora era
arquiteta, fez mestrado em Paris, conheceu diversos países na Europa e nas
Américas, dedicava parte de seu tempo para desenvolver projetos arquitetônicos
de baixo custo para melhorar a vida de pessoas carentes e era colorada. Gustavo
era fluente em Inglês, Francês, Italiano e Espanhol, e sabia algumas palavras
em Mandarim, por causa de um prêmio que foi receber na China. Tocava piano,
violino, tamborim e violão. Só tinha saído do país para receber prêmios e
ficava profundamente irritado quando isso o fazia perder um jogo do Grêmio.
Gustavo tinha
mãos e pés grandes, pernas fortes, lábios pequenos, e o sorriso mais sincero e
acolhedor que Flora já havia visto. Ele era inteligente, divertido, gentil,
culto, e nem um pouco arrogante. Seu olhar era direto, penetrante, atento e
focado apenas nos olhos de Flora enquanto ela falava. Flora tinha braços
delicados, dedos longos nas mãos, pés pequenos, lábios demoníacos e uma
pequena, porém impossível de Gustavo ignorar, tatuagem no pescoço. Seu eclético
gosto cultural abrangia do popular ao erudito, tinha conhecimento para falar
sobre qualquer assunto e a doçura de uma mulher, que é muito mais bela que a
ingenuidade de uma “menina”.
Quando o
silêncio postou-se no pouco espaço que ainda havia entre eles, incertos, os
dois rostos aproximaram-se com a vagarosidade do receio de estar confundindo as
coisas. Narizes se encaixaram, mãos encostaram em queixos, polegares deslizaram
por lábios, palmas passaram por orelhas e dedos pressionaram nucas. Um podia
sentir nos lábios o calor que escapava da boca entreaberta do outro, depois não
podia mais, as bocas se encostaram levemente e o interfone tocou.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Gustavo e Flora (2)
Flora estava pirigueticamente
sentada no sofá, com uma saia soltinha que deixava suas belas coxas a vista,
uma blusinha decotada e nenhum vestígio de sutiã. O seriado que ela assistia
era uma comédia e Flora parecia gostar bastante de comédias, já que seus seios,
completamente livres dentro da blusa, arfavam entre crises de riso convulsivo.
Após observar por um breve período, com intuitos puramente profissionais, o
interessante efeito, Gustavo utilizou toda sua desenvoltura e optou por uma
técnica excelente para chamar atenção de uma mulher. Limpou a garganta como se
estivesse encatarrado.
Flora virou-se, olhou para ele,
sorriu e ajeitou-se no sofá, enquanto puxava a saia para baixo tapando as
coxas. Gustavo deu a volta no sofá, tentou colocar a mão no bolso e não soube o
que fazer quando não encontrou nenhum.
-
Oi. Eu sou o Gustavo... – Esticou a mão direita para
cumprimentar a visita.
-
Eu sou a Flora. – Flora cumprimentou Gustavo com a mão
direita e, com as pontas dos dedos da esquerda, arrumou o cabelo atrás da
orelha.
-
Já almoçou?
-
Não. Conhece “Quase lá”?
Claro que Gustavo conhecia
“Quase lá”, ele era o roteirista principal de “Quase lá”, ele tinha criado o
“Quase lá”, ele era o cara do “Quase lá”. Mas resolveu não dizer para Flora
que ela estava diante do homem mais “Quase lá” de todos.
-
Conheço, conheço...
-
É muito bom né? Acho que eles se perderam um pouco na
quarta e na quinta temporada, mas agora se recuperaram... Eu amo o Rogério.
-
É que o roteirista tava com uns problemas durante a
quarta e a quinta temporada...
-
Ah é? Não sabia...
Sem bolsos, Gustavo apoiou as
mãos na cintura, depois cruzou os braços. Coçou o bíceps direito com a mão esquerda. Coçou a
nuca com a mão direita. Deixou os braços esticados em frente ao corpo,
segurando as mãos, e assim ficou. Como o programa estava no intervalo, Flora
observou que Gustavo tinha ombros largos, tinha músculos definidos mas era
magro. A barriga tinha apenas uma pequena saliência, que Flora achou
charmosinha e... “Quase lá” voltou. Gustavo pensou em quebrar o gelo.
-
Quer uma cerveja?
-
São onze da manhã...
-
Hum, verdade...
E foi nesse momento que Gustavo
teve uma grande ideia, vestir calças. Aprimorou a ideia acrescentando um banho,
e levou apenas alguns segundos para decidir inverter a ordem. Primeiro o banho,
depois as calças.
-
Eu vou tomar um banho e já volto.
-
Tá bom. Depois eu te conto como termina.
Gustavo olhou para Flora, para a TV e sorriu.
-
Ah. Obrigado.
Gustavo partiu para o banho e deixou
Flora apaixonando-se cada vez mais por Rogério.
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